A Cabana e o fazer justiça com as próprias mãos

A Cabana e o fazer justiça com as próprias mãos

Mack é pai de família. Tem uma esposa religiosa, dois filhos adolescentes e uma menina pequena. Ambos formam a família tradicional que frequenta a igreja todo domingo. De início confesso que fiquei um pouco desanimada, imaginando que toda essa tradicionalidade acabaria me deixando em tédio. Mas o filme conseguiu me fisgar fazendo com que eu abaixasse a guarde e deixasse meus preconceitos de lado. Sim, eu tenho minha fé assim como também tenho um lado cético. Costumo dizer o famoso ditado de que “Jesus é maneiro, o que ferra é o fã clube dele” e é esse fã clube que faz a palavra religião parecer um veneno.

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Foto: Reprodução/Veja

“Religião. A religião é muito trabalho. Eu não quero escravos. Quero amigos, família para compartilhar a vida.” 

Mas gosto de pensar que o filme não é sobre religião, apesar de abordarem o lado cristão da coisa toda, é uma história sobre fé. Mack (Sam Worthington) teve uma infância não muito feliz com um pai que enchia a cara e batia na mãe e nele. Deixar o passado para trás nem sempre é fácil, mas ao conseguir construir uma linda família ele fora capaz de seguir em frente.

Até ter sua filha mais nova assassinada brutalmente. Sem nem ao menos ter o corpo para um velório, tendo que lidar com as evidências de que além de assassinada a pequena Missy também fora estuprada, Mack se torna sombrio e se afasta de todo o restante da família. Mas um bilhete é entregue para mudar essa história e ele retorna a cabana onde encontrou as provas de que sua filha havia sido morta.

“Não importa o que você está fazendo. Você nunca tem que fazer isso sozinho.”

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Jesus (Aviv Alush) e Mack (Sam Worthington) prestes a clássica cena do andar sobre as águas. Refletindo sobre as dificuldades que encontramos na vida e como não temos que enfrentá-las sozinhos. Foto: Reprodução/Veja

A escolha dos atores para cada personagem, até mesmo cada personagem que fora criado no livro escrito por William Young, tudo é perfeitamente perfeito. E me desculpem a redundância. Mas Jesus sendo interpretado por Aviv Alush? A cena dele e Mack andando pela água? Essa coisa de como Deus é quem precisamos que ele seja, a figura de um pai, de uma mãe, colocando a maravilhosa Octavia Spencer vivendo um Deus que gostaríamos muito de conversar e cozinhar? Ficou maravilhoso!

É sobre perdão, redenção e fé mesmo nas circunstâncias ruins. Em certo ponto eu me senti incomodada com toda a questão de deixar a vontade de Deus seguir seu percurso e isso só me mostrou como estamos cada vez mais tentados as justiças feitas com nossas próprias mãos. É complicado. Algumas críticas a respeito do filme abordam que a proposta não gera discussão, que é apenas mais uma propaganda cristã, mas fico me perguntando se elas permitiram que o filme a tocassem ou se começaram a assistir com suas críticas já feitas.

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Mack e Deus, que é interpretado por Octavia Spencer fazendo você querer fazer parte dos diálogos que aconteciam entre ambos. Foto: Reprodução/Veja

“E há bilhões como você… Cada um determinando o que acha que é bom e mal. E quando o teu bom conflita com o mal do teu próximo, procuram argumentos. As guerras explodem. Porque todos insistem em brincar de Deus.”

Incomoda o perdão de Mack. Incomoda não vermos a justiça do homem sendo feita. Mas precisamos tirar essa ideia de que somos nós quem devemos punir. O que é justiça para mim, nem sempre será justiça para o próximo. Imagine como seria se cada um de nós, sem exceção, parasse de sentir-se no poder de julgar alguém, prejudicar alguém…

Eu sei, é difícil simplesmente abandonar esse sentimento de raiva, essa sede por vingança que sempre sentimos diante de injustiças, digo isso por mim, que até hoje não entendo como pessoas boas sofrem nas mãos de pessoas ruins. Acredito que esse tenha sido o ponto que incomodou tanta gente, não é uma tarefa fácil aceitar que nem tudo está em nossas mãos. Mas se desprendermos um pouco dessa questão do que é certo e do que é errado, entenderemos que o filme é justamente para gerar esse debate da sede de violência que estamos sentindo com uma força cada vez maior e de como ela não nos levará para um lugar melhor do que esse que encontramos hoje nos jornais.

Assista ao trailer:

O filme ainda está disponível em alguns cinemas*

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